30 julho 2007

Hip Hop Classics (3)


«You are now about to witness the strength of street knowledge! »

É assim, com esta mítica advertência, que começa um dos mais revolucionários álbuns do Hip-Hop. O mês de Agosto de 88 tornou-se especialmente escaldante quando das atribuladas ruas de Compton, South Central L.A., saiu um álbum que continha faixas que se tornaram hinos, hinos que gritavam «Fuck tha Police». Era o início do Gangsta Rap, o mais polémico subgénero do Hip Hop. O álbum : Straight Outta Compton do colectivo N.W.A. (Niggaz With Attitude).

Com uma formação que incluía entre outros Eazy-E, Ice Cube, MC Ren e Dr. Dre, todos eles artistas que fariam carreiras importantes a solo, os N.W.A. têm que ser considerados o primeiro super-grupo do Hip Hop. Depois de um bem sucedido primeiro álbum (N.W.A. and the Posse chegou a ouro) lhes ter garantido a atenção dos media e da tribo do Hip Hop, os N.W.A. fazem do “difícil” segundo álbum uma obra com impacto devastador, abordando de forma explícita temas quentes como a violência policial e o racismo, disparando rimas letais sobre o governo e os seus tentáculos, advogando valores como o materialismo e o machismo ou falando despreocupadamente das suas ligações ao mundo do crime.

Totalmente produzido por Dr. Dre e Dj Yella, este é o álbum onde pontificam faixas que se tornaram clássicos eternos como Straight Outta Compton, Fuck Tha Police, Gangsta Gangsta ou Express Yourself, cometendo as proezas de chegar a tripla platina e definir um género sem o suporte do air play nas rádios devido à natureza demasiado explícita das letras.

A personalidade volátil e conflituosa dos seus membros não permitiu que os N.W.A. durassem mais que cinco anos (86-91), mas a efemeridade do colectivo não impediu que a conceituada Roling Stone os incluísse na sua lista dos 100 melhores artistas de sempre!

Word!

27 julho 2007

Hip Hop Classics (2)

'Shaolin shadowboxing and the Wu-Tang sword style.
If what you say is true, the Shaolin and the Wu-Tang could be dangerous.
Do you think your Wu-Tang sword can defeat me?'

Wu-Tang Clan - Enter the Wu-Tang (36 Chambers) '93

Provenientes da cena underground de Nova Iorque os Wu-Tang Clan vieram definitivamente revolucionar o panorama hip hop mundial, com a sua estreia discografica em 1993.
De facto, todos os aspectos deste projecto são peculiares. Tudo gira à volta do produtor e mc The Rza, sendo o primeiro facto a destacar o numero de elementos que compoem este super-grupo, 9(!). Todos eles Mcs dão pelo nome de Gza/The Genius, Method Man, Ghostface Killah, Raekwon, Inspectah Deck, Masta Killa, U-God e o entretanto falecido Ol' Dirty Bastard.
Rza é então o mentor de tudo, produzindo as faixas. O conceito parte dos velhos filmes de kung-fu e da estetica samurai e das artes marciais. Samples de varios filmes são usados, desde dialogos a sons de lutas de espadas, sendo inclusive o nome do projecto retirado de um filme sobre uma mitica espada com poderes sobre-naturais, a Wu-Tang. A esses sons Rza junta a seu bel prazer, batidas minimais, cordas de instrumentos classicos e sons de piano para construir a banda sonora perfeita para uma especie de pesadelo surrealista que os varios Mcs vão ajudando a construir com as suas rimas que vão da estectica gang à criação de personagens de caracter teatral, passando por exercicos de critividade com palavras e story-tellings cerebrais.
O plano consistia em apresentar um primeiro album de conjunto, com participação de todos, que fosse de tal maneira forte que depois permitisse lançar uma ofensiva de grupo, com todos os elementos a terem lançamentos a solo, podendo então demonstrar de forma mais eficaz e confortavel os seus talentos e ideias. Por tras destes albuns a solo a mão de mestre de Rza para dar uma ideia efectiva de clan a tudo isto.
Para surpresa geral o plano resultou, com o album de estreia a ser um sucesso de critica e publico, criando quase de imediato um enorme culto em volta dos Wu.
Genial e varias vezes imitado, o album permanece um marco, sendo os unicos a aproximarem-se do seu valor dentro do genero, albuns posteriores do grupo ou de elementos seus a solo.
Isto, porque o plano inicial do grupo foi mantido e todos os elementos tiveram direito a trabalhos a solo e varias colaborações com outros artistas de fora do Clan.
Sendo todos excelentes Mcs, alguns estão por direito proprio no panteão dos melhores de sempre, casos de Method Man (o maior sucesso comercial), Raekwon ou Gza. Rza, estando um pouco abaixo nos talentos de flow, compensa com as suas brilhantes produções para estes elementos, outros de fora e para os seus proprios projectos a solo, alguns deles de cariz instrumental como a brilhante banda-sonora do filme de Jim Jarmusch 'Ghost Dog'.
Ainda no activo e com peso inegavel na produção actual de hip hop, o grupo so lançou mais 3 trabalhos de conjunto e apenas deu um concerto com todos os seus 9 elementos, registado em dvd. Depois da morte de Ol' Dirty, uma nova reunião é impossivel e mesmo os restantes 8 elementos nunca mais se juntaram ao vivo apesar das excelentes relações entre todos, outro facto consideravel.
Este trabalho de estreia continua então a ser um trabalho de imensa frescura e criatividade, parecendo intemporal, devendo fazer parte de qualquer lista que se preze de albuns obrigatorios.

'Wu-Tang Clan ain't nuthing ta fuck wit'
Word.

24 julho 2007

Hip Hop Classics (1)

Respect.

Public Enemy - It Takes a Nation Of Millions To Hold Us Back '88

Na eterna guerra pela conquista de respeito que o hip hop merece, com muitas batalhas ainda por vencer, especialmente em Portugal, uma nova serie de posts, com alguns dos meus albuns de eleição, muitos deles presença habitual em listas de melhores de sempre, não só de hip hop mas em termos generalistas.

Não consigo começar de outra forma que não seja pelo inicio, pelo primeiro album de hip hop que me marcou, curiosamente o primeiro que comprei (bendito El Corte Ingles de Vigo, em saldos, corria o ano de 90 ou 91, ainda não havia Fnacs aqui pela terra à beira mar plantada...).
Os meus contactos com o hip-hop, constavam apenas de Vanilla Ice ou Mc Hammer, do mais comercial que ha, sem respeito aos codigos do hip hop. Mas algumas sessões de Mtv, tinham recentemente dado a conhcer coisas como Run Dmc, Ll Cool J ou Eric B and Rakim e as coisas mudavam de figura. Mais ainda quando vi o video de 'Fight the Power' de Public Enemy do seu album de '90 'Fear of a Black Planet'. Muita frescura em termos sonicos, uma dupla de Mcs brilhante que à voz mais grave e seria de Chuck D contrapunha a mais aguda e brincalhona de Flavor Flav ( o senhor que ficou famoso pelos gigantes relogios que ostentava no peito com correntes ). Quando os vi na estante do El Corte a preço reduzido, não hesitei, queria saber do que eram capazes. Sorte minha tive o melhor album deles, melhor que a estreia em '87 'Yo! Bumrush the Show' e que a referida continuação em '90.
Em '88 e com 'It Takes a Nation(...)' os Public Enemy criaram um monumento ao hip hop e a diversidade musical, deitando mão a todo o tipo de sonoridades para criar um som que era novo, era deles.
Como se isso não bastasse o discurso era não só ultra-fluido como politico e pensado.Chuck D era e é um activista, dizia e de forma eloquente tudo o que pensava sobre a administração Reagan (um prenuncio do horror que os Bush pai e filho trariam) e de toda a historia recente dos Estados Unidos, com especial relevo para as lutas raciais.
Senão o melhor, pelo menos o mais influente dos albuns de hip hop, continua sempre referenciado pelos mestres do movimento. Temas como 'Bring the Noise' (que foi mais tarde regravado com os Anthrax, numa das primeiras colaborações entre metal e hip hop), 'Don't Believe The Hype', 'Louder Than a Bomb' (que teve direito a uma versão de Tiga, ele mesmo), 'Black Steel in the Hour of Chaos' (esta com versão de Tricky, no seu album de estreia), 'Party for Your Right to Fight' ou 'She Watch Channel Zero' são certamente um retrato dos tempos que se viviam mas tambem são classicos intemporais da musica do seculo XX.
Na contracapa uma citação de Frederick Douglass, orador americano do sec XIX que ajudou na luta pela absolvição da escravatura, que tambem disse ' Without struggle there is no progress', e que espelahava o sentimento de revolta do album e que ainda hoje se mantem actual.(os Public Enemy ainda existem e parecem querer voltar a boa forma depois de um periodo moribundo), rezava da seguinte forma :
'Freedom is a Road Seldom Travelled by the Multitude'
Word.

10 julho 2007

Hits From The Bong

Uma espreitadela ao que os Cypress Hill são capazes. Sudoeste 2007, eles vêm ai.

LCD Soundsystem - Yeah @ SBSR

A qualidade do som do video não esta à altura da melhor interpretação do festival, mas da uma ideia da maquina de som.

Arcade Fire SBSR 2007

Final em apoteose com 'Wake Up', com mais um coro do publico que parecia adorar fazer melodias.

09 julho 2007

Isle of Wight 1970 - A Message to Love


Estamos em 1970 e estamos de volta à Ilha de Wight e a um dos maiores festivais de música de sempre (e que música!!).
Em finais de Agosto (de dia 26 a dia 30) de 1970, a Ilha de Wight, situada no sul de Inglaterra e que na altura contava com menos de 100 mil habitantes, foi "invadida" por cerca de 600 mil pessoas durante este festival. Para ajudar a "viagem espiritual" desta imensa multidão em plena época alucinante (ou alucinogénia!!?) foram convidados artistas de alto gabarito (na altura alguns deles podiam não ser vistos como tal mas mais tarde...!), estes não se fizeram rogados e deram algumas das suas mais brilhantes e inesquecíveis performances.
Este mítico festival juntou nomes como Miles Davis (com a inigualável interpretação de Call it Anything, já aqui referido no Estante Vazia), Leonard Cohen, Cactus, Donovan, Joan Baez, The Doors (numa das últimas aparições de Jim Morrison, pois este viria a falecer tempos mais tarde..), Joni Mitchell, Melanie, Gilberto Gil (sim! esse mesmo...), Emerson Lake & Palmer na sua primeira aparição (há quem diga que foi a segunda...), Ten years After, The Who, Moody Blues, Supertramp, Free, Bram Stoker, entre muitos, muitos outros!
Mas foi no último dia que 600 mil "hippies" ficaram extasiados e realmente "triparam"...
Jethro Tull com a sua característica imagem e uma actuação para mais tarde recordar precedeu Jimmy Hendrix, cuja representação musical não foi tão gloriosa mas iria ficar na memória de toda a gente para sempre pois este deixaria-nos um mês depois. Tudo aconteceu neste festival, desde insultos dos organizadores para o público, motins, incêndios no palco, "trips" e claro, a velhinha Strato de Hendrix em chamas! De tão marcante ter sido bandas como The Who, Emerson Lake & Palmer, Jimmy Hendrix e Jethro Tull lançaram discos com as suas apresentações na "ilha dos amores".
Aqui vos deixo um exemplo do que foi este grandioso festival de música... Isle of Wight 1970.

Emerson, Lake & Palmer - Rondo




Para os apreciadores e mais curiosos aconselho a verem o filme/documentário A Message to Love, Isle of Wight 1970

Interpol - rescaldo

O Paulo (os amigos tratam-se pelo nome próprio) entrou à hora marcada. “It's way too late to be this locked inside ourselves”. A verdade é que já há longos anos que esperávamos, fechados neste rectângulo pequenino, longe de dos grandes eventos e vigiados de perto, de muito perto pela saudade, por um momento célere como este. Setenta minutos raros (há quem ache que foram mais de tão intensos!!!) em queconseguimos partilhar com os amigos tão singelos momentos em que tudo parou. Não me lembro de um concerto em que não tivesse cantado. Depois, depois houve o Paulo e, como ninguém coloca a voz nas palavras como ele, deixei-me levitar em sorrisos. Já de volta a casa, o Tiago, soletrava juntamente com a Bri e a Dani a verdade insofismável que nos consome “Because friends don't waste wine when there's words to sell”. Fica a segunda parte para dia 7….

“(…)Today my heart swings
Yeah today my heart swings
But I don't want to take your heart
And I don't want a piece of history
No, I don't want to read your thoughts anymore
My god
'Cause today my heart swings
Yeah today my heart swings (…)”

Não me saiu da cabeça em toda a viagem...



a novidade...







Obrigado.

07 julho 2007

Um Passo à Frente ou Professores e Alunos de Mérito

Quando em '97 os Daft Punk lançaram 'Homework', poucos teram previsto o alcance e impacto que este registo e a posterior carreira da dupla viriam a ter, mesmo que a genialidade do album tivesse desde inicio sido reconhecida. Album sujo e barulhento mas tambem com momentos menos tensos e muitas melodias irresistiveis, este era um trabalho que provava que as electronicas dançantes podiam coexistir nos seus varios quadrantes dentro do mesmo longa duração sem afectar a unidade do mesmo.
Este era ainda para mais um album de estreia de uma jovem dupla e não de algum monstro sagrado, ainda para mais jovens com passado nas areas rock e influencias declaradas dentro do genero, algo bastante pouco comum na altura. Os Daft Punk continuaram a sua carreira com uma inflexão para um som mais inspirado nos anos 80, a sua electronica e rock, com longos solos de guitarra datados, que não julgavamos possivel ouvir de novo. Foi na altura recebido com reações de surpresa, que alternavam o genial com o horrendo e o piroso. 'Discovery' de 2001, foi no entanto o mais vendido dos seus albuns graças ao estrondoso sucesso de 'One more Time', que se tornou planetario. Foi tambem um prenuncio da vaga electroclash que viria a dominar as correntes dançantes nos 3 ou 4 anos seguintes. Da sua carreira faz ainda parte 'Human after All' de 2005 album mais virado para dentro, mais negro e mais uma vez não totalmente compreendido na altura do lançamento.
Dez anos depois de 'Homework' os Daft Punk têm agora uma corrente de declarados fãs e assumidamente inspirados nas suas criações musicais a tentar tomar de assalto as pistas de dança e porque não tambem os tops por ai fora.
Musica electronica suja, barulhenta, maximalista, que engloba sons de rock e outros generos numa saudavel promiscuidade. Os primeiros sinais foram talvez dados pelos 2 Many Dj's/ Soulwax mas nos ultimos 2 anos uma serie de projectos foi aparecendo com eps e remisturas que foram dando que falar, algumas para os proprios Daft Punk e Soulwax, outras para nomes como Death from Above 1979, Klaxons, Tiga, Franz Ferdinand ou Cansei de Ser Sexy.
Falo de nomes como MSTKRFT, Digitalism, Sebastian, Simian Mobile Disco, Boys Noize ou Phones e editoras como a Kitsune ou a Ed Banger, propriedade de um dos membros dos Daft Punk, Thomas Bangalter.
Em 2007 alguns destes projectos chegam ao formato album, com destaque para 'Cross' dos Justice, o mais conseguido dos trabalhos e tambem o mais devedor da estetica dos Daft Punk.

Alguns trabalhos a ouvir :
Justice 'Cross'
Digitalism 'Idealism'
MSTRKRFT 'The Looks'
Simian Mobile Disco ' Suck my Deck' (mix-cd)
' Attack Decay Sustain Release'

02 julho 2007

Zen

Fundada em 1990 pelos dois membros dos Coldcut, a Ninja Tune, sediada em Inglaterra, tem vindo desde o primeiro lançamento a tornar-se numa das mais solidas editoras a operar dentro das margens da musica electonica. Muito cool desde o inicio, foi dando a conhecer projectos de trip-hop atmosferico, hip hop instrumental e ocasionalmente cantado (mais tarde viria a ser criada uma subsidiaria a Big Dada,que edita entre outros Roots Manuva , Ty, Spank Rock, Wiley, ou o entusiasmante projecto frances Ttc, que habitualmente colabora com os Modesektor, da Bpitch Control da berlinense Ellen Allien, so para o hip hop de caril vocal e novos aparentados: grime, crunk, etc) e de uma maneira geral todos os que optaram por uma opção mais ou menos jazz da electronica, partindo depois para diferentes sugestões de ritmo e espaço. Nomes como Amon Tobin, Clifford Gilberto, Cinematic Orchestra, Bonobo, Diplo, Dj Food, Dj Vadim, Herbaliser, Funki Porcini, Flanger, Jagga Jazzist, Kid Koala, Mr.Scruff, Up,Bustle and Out, ou Wagon Christ viram os seus nomes nos registos da casa e ajudaram a criar o bom nome da mesma.
Sem nunca perder um ritmo de edições por ano bastante prolifico, com muitos resultados exepcionais ao longo dos anos, a Ninja volta a atacar em 2007. O site e de qualidade e mostra de tudo. http://www.ninjatune.net/. Vale uma visita.

Um dos novos lançamentos deste ano é o novo de Amon Tobin, 'The Foley Room'.
Desde a estreia em 1996, ainda com o nome Cujo, mas ja na Ninja, com 'Adventures in Foam', passando pelos albuns em nome proprio, 'Bricolage'('97), 'Permutation'('98), 'Supermodified'(2000, o seu melhor trabalho), 'Out From Out Where'('02), a colaboração para a serie de mix-cds da editora, Solid Steel em 2004 e a banda sonora do video game de consolas e pcs bem equipados 'Splinter Cell 3 : Chaos Theory' em 2005, este brasileiro faz obras magnificas de corte-e-colagem com materias sonoras que evocam a seu tempo, paisagens de jazz, hip hop, trip hop, drum and bass, normalmente em toada claustrofobica mas com luzes a aparecerem trazendo esperança a sua musica. Bebel Gilberto chegou a fazer uma versão vocal de um tema seu, provando a aproximação a um genero tão distante como a bossa nova.
O novo album e o melhor desde 2000, com um Amon em grande forma. Ja saiu em Fevereiro, mas como as modas são outras nos media, foi tratado com pouco relevo ainda que com boas criticas em todas as publicações que li. Seria uma pena perder a importancia deste album, muito bem arquitectado. Como é habito na Ninja todo o trabalho grafico e visual é magnifico, o que so valoriza ainda mais o produto final.Zen.